Nico Williams entrega medalha da Copa à mãe, que cruzou o Saara a pé e grávida para chegar à Espanha
Jogador da Espanha coloca medalha de campeão na mãe Um dos grandes astros da seleção espanhola de futebol, Nico Williams abandonou a comemoração com os co...
Jogador da Espanha coloca medalha de campeão na mãe Um dos grandes astros da seleção espanhola de futebol, Nico Williams abandonou a comemoração com os colegas de equipe logo após receber a medalha pela vitória na Copa do Mundo, no domingo (19), em Nova York. Ele caminhou até a arquibancada e entregou à mãe sua medalha. ✅ Siga o canal de notícias internacionais do g1 no WhatsApp Desde então, a homenagem vem rodando o mundo acompanhada pela história por trás dela: há quase 30 anos, os pais de Nico Williams, ganeses, cruzaram o maior deserto quente do mundo, foram detidos e quase deportados, para chegar à Espanha - que agora seu filho caçula ajuda a ser campeã. Ao lado do também astro Lamine Yamal, Williams se tornou um dos rostos de uma "nova Espanha", em que filhos das primeiras grandes levas de imigrantes, no início dos anos 1990, cresceram e redefiniram a identidade do país, respaldados por políticas de integração e de regularização de governos recentes (leia mais abaixo). Nico Williams entrega medalha da Copa à mãe Reprodução Em entrevistas à imprensa espanhola, o jogador disse que a entrega da medalha à mãe foi um reconhecimento à viagem que seus pais fizeram há 30 anos, quando decidiram deixar Gana — um dos países de onde saíram escravizados enviados ao Brasil no século XIX — em busca de uma vida melhor. 👉 O casal originário da África Subsaariana enfrentou um desafio monumental: cruzar, em grande parte a pé, quase 4.000 quilômetros pelo maior deserto quente do mundo — cerca de metade da distância, em avião, do sudeste do Brasil para o sul do Europa. Travessia a pé e detenção O jogador espanhol Nico William (com a taça na mão) posa para foto com sua mãe (à direita) e seu pai após a Espanha vencer a Copa do Mundo de 2026, em 19 de julho de 2026. Carlos Barria/ Reuters O tamanho e os riscos do trajeto não desanimaram os pais de Williams, assim como os mais de 100 mil africanos subsaarianos que, segundo a Organização Internacional para as Migrações (OIM), chegam a países europeus anualmente após atravessar o Saara. Em uma entrevista à revista espanhola "Esquirre", Williams contou que a mãe grávida chegou a caminhar descalça pelo deserto quente. Driblou, ao lado do pai, gangues pelo caminho e traficantes de pessoas, enfrentou a fome e a sede extrema e viu companheiros de trajetória morrerem ao seu lado. “Minha mãe sofreu muito. Andar pelo deserto descalça, muitas coisas que eu não desejaria a ninguém. No fim, ninguém vem para a Espanha para roubar ninguém (...) Meus pais para mim são heróis, vieram aqui para trabalhar, não para tirar nada de ninguém, mas para ser mais um e se integrar". Nico Williams celebra pouco antes de entregar a medalha à mãe após a final da Copa do Mundo. Joel Marklund / BILDBYRÅN /Reuters Depois de sobreviver à travessia, contou o jogador, os pais tiveram um desafio final: teriam de escalar e pular, sem qualquer proteção, uma cerca de 6 metros de altura que se estende ao longo de cerca de 18 quilômetros da fronteira entre o norte do Marrocos e a cidade de Melilla, um enclave espanhol no norte da África. Muitos imigrantes morrem ou se ferem gravemente na tentativa e outros não conseguem completar a empreitada ao serem surpreendidos por policiais espanhóis com cacetetes tentando impedi-los de chegar ao lado europeu da fronteira. Em imagem de 2014, imigrantes ilegais tentam entrar no enclave espanhol de Melilla, no norte da África, em meio a um jogo de golfe que acontecia dentro do território. Jose Palazon/Reuters Cada vez mais anti-imigração, Europa vai torcer por filhos de imigrantes na Copa do Mundo Irmãos jogadores Também à imprensa espanhola, a mãe de Williams já contou que nunca teria feito o trajeto se soubesse tudo o que lhe esperava nele. Até porque, afirmou, foi só quando chegou ao território espanhol que ela descobriu que estava grávida do irmão mais velho de Nico, o também jogador de futebol Iñaki Williams. E, ainda assim, foi detida ao lado do marido pela polícia espanhola ao conseguir escalar a temida cerca de Melilla. Dali, as chances de deportação eram altas para os pais de Williams, que já eram maiores de 18 anos — os menores devem ser acolhidos no país de chegada — e não vinham de um país em guerra para receber asilo. No entanto, eles foram ajudados por um padre basco que fazia trabalho voluntário com imigrantes, e conseguiram deixar o centro de detenção com uma solicitação de asilo, que receberam posteriormente. "Eu pertencia a um grupo que atendia a imigrantes e falava inglês (idioma oficial em Gana, ex-colônia britânica), por isso os recebi, e nossa amizade começou", contou o padre Iñaki Mardonés em entrevista ao canal espanhol de notícias Antena 3. A ajuda levou o casal a colocar o nome do padre, que é tipicamente basco, em seu primeiro filho. Hoje, Iñaki Williams também é jogador de futebol e joga ao lado de seu irmão caçula no Athletic de Bilbao, time mais famoso do País Basco. Na Copa do Mundo, no entanto, os irmãos se separam: desde 2022, Iñaki joga pela seleção de Gana, em homenagem à origem dos pais, enquanto Nico escolheu o país onde nasceu, cresceu e ajudou a moldar. "Eles são uma referência para muita gente, não só por serem jogadores, mas por formar parte desta nova Espanha mais mestiça que temos hoje", disse Mardones. Bicampeã: Espanha domina a Argentina e conquista a Copa pela segunda vez